Alberto Caeiro e La Fontaine

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014




O amor é uma companhia. 
Já não sei andar só pelos caminhos, 
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa 
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo. 
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo. 
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar. 
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas. 
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela. 
Todo eu sou qualquer força que me abandona. 

Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.


Os dois pombos


Amavam-se dois pombos ternamente
Com suave meiguice e amor profundo.
Um deles – que loucura! – de repente
À casa toma tédio, quer ver mundo.

«Que vais fazer? – diz-lhe então
Já saudoso o companheiro.
Medita, pensa primeiro,
Assim deixas teu irmão?
Ninguém duvida que a ausência
É dos males o maior;
Não para ti!... Só se for
Que os trabalhos, a inclemência,
E dessa jornada o p’rigo,
Que pretendes arrostar,
Possam teu peito mudar
Em peito bondoso, amigo.
Se mais perto a Primavera
Sorrisse alegre, então... vá!
Quem te obriga a partir já?
Espera o zéfiro, espera.
Há pouco um sinistro corvo
Crocitou, e à nossa raça
Agoirou muita desgraça
Em tom profético e torvo.
Só nas coisas infelizes
Doravante pensarei;
Em redes, falcões, que sei?...
Tiros, flechas e boízes.
Ah! – direi quando chover:
Meu pobre irmão, coitadinho,
Terá ceia, terá ninho,
E tudo o que lhe é mister?»

Esta linguagem branda e cheia de bondade
Enternecê-lo faz;
Teve porém mais força a indómita vontade
Do viajante audaz.

«Não chores; três dias bastam-me
– Já vês que é curta a demora –
Para matar este férvido
Desejo que me devora.
Quando voltar, com que júbilo
Referirei por miúdo
Aventuras, episódios,
Incidentes, tudo, tudo!
Quem pouco vê, é certíssimo,
Que pouco pode contar.
Eu te direi que em tal época
Achava-me em tal lugar,
E tu, enlevado, extático,
De me ouvir falar assim,
Hás-de julgar – asseguro-te –
Que estavas ao pé de mim.»

Assim falou, e em pranto de soluços
Despediram-se os dois. O viajante
A jornada começa. Não distante
Da casa, que fugira, carregada
Ergue-se no ocidente escura nuvem
Que em chuva se desata, e o peregrino
Corta os ares em louco desatino,
Um albergue buscando, uma pousada.
Negro tronco, de folhas quase nu,
Se lhe depara então. Voa ligeiro,
E mal pôde encontrar de triste ulmeiro
Entre a folhagem rara asilo pobre.
Depois, quando outra vez se anila o céu,
Frio, molhado sai do humilde abrigo,
Enxuga as penas, parte, e muito trigo
Espalhado no campo além descobre.

Outro pombo vê perto, e sem detença
Dirige-se p’ra lá.
E quando cuida mais, quando mais pensa
Gozar com seu igual ventura imensa,
Num laço preso está,
Que por mão ardilosa, enganadora,
Por debaixo do trigo armado fora.

O laço era já velho. O prisioneiro
Esforça-se, porfia, teima, luta;
De tal forma trabalha
Co’as asas, bico e pés, que enfim consegue
Quebrá-lo, ver-se livre, muitas penas
Deixando na batalha.

Mas a fortuna má, que o segue, e nutre
Contra o pombo infeliz ódio entranhado,
Já lhe mostra nos ares um abutre,
Que voraz, esfaimado,
Mal o avista, a vontade sente acesa
De lhe deitar a garra e fazer presa.
E o mísero, que traz restos de guita
A cortar-lhe inda os pés,
Um galeote, um criminoso imita
Fugido das galés.

Eis que porém naquele mesmo instante,
Batendo as asas longas,
Das nuvens arremessa-se gigante
Uma águia, e sem delongas
Trava-se entre os ladrões rude peleja
Por lograr cada qual o que deseja.

O pombo, como terceiro,
Aproveita do combate;
Ergue o voo, e só o abate
Quando encontra um pardieiro,
De seu bárbaro destino
Julgando o pobre animal
Que a peripécia final
Era este caso mofino.
Mas um rapaz turbulento
– Não tem compaixão a infância –
Uma pedra com tal ânsia
Lhe envia, que sem alento
Quase o deixa. Maldizendo
A sua curiosidade,
Vai para casa gemendo,
Meio coxo, meio morto,
E sem outra novidade

Chega do ninho ao conforto.

Cozas

sexta-feira, 31 de outubro de 2014












"A teoria da modificabilidade cognitiva Estrutural (MCE), formulada pelo psicólogo israelense Reuven Feuerstein, baseia-se na premissa de que existe um potencial de aprendizagem a ser desenvolvido por qualquer sujeito, independente de sua idade ou origem étnica ou cultural.

De acordo com Feuerstein, a maioria de nós apresenta uma série de "funções cognitivas deficientes", ou seja, nossos processos mentais raramente operam em um nível ótimo de funcionamento. A partir de uma avaliação adequada, e com o auxílio de instrumentos concretos de apoio psicopedagógico, a grande maioria dos indivíduos torna-se então capaz de desenvolver essas potencialidades. - Wikipedia".

Carlos Lyra: Primavera

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Primavera by Carlos Lyra e Dulce Nunes on Grooveshark

O meu amor sozinho
É assim como um jardim sem flor
Só queria poder ir dizer a ela
Como é triste se sentir saudade

É que eu gosto tanto dela
Que é capaz dela gostar de mim
Acontece que eu estou mais longe dela
Que da estrela a reluzir na tarde

Estrela, eu lhe diria
Desce à terra, o amor existe
E a poesia só espera ver nascer a primavera
Para não morrer

Não há amor sozinho
É juntinho que ele fica bom
Eu queria dar-lhe todo o meu carinho
Eu queria ter felicidade

É que o meu amor é tanto
É um encanto que não tem mais fim
E no entanto ela não sabe que isso existe
É tão triste se sentir saudade

Amor, eu lhe direi
Amor que eu tanto procurei
Ah! quem me dera eu pudesse ser
A tua primavera e depois morrer


Lontrassss!!!

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Esse bicho, no dia de hoje, está a me causar um retardo! Não consigo parar de procurar sobre e é tãooooooooooo...

Tirem suas conclusões!

:3

Secos e Molhados: Primavera nos dentes

quarta-feira, 24 de setembro de 2014


Quem tem consciência pra se ter coragem
Quem tem a força de saber que existe 
E no centro da própria engrenagem 
Inventa contra a mola que resiste 

Quem não vacila mesmo derrotado 
Quem já perdido nunca desespera 
E envolto em tempestade, decepado 
Entre os dentes segura a primavera


Palestras Importantes

sábado, 20 de setembro de 2014


Um problema, que em nenhum momento da minha vida foi tão notável, exposto nestas palestras de maneira importante à reflexão.

A meia compreensão das coisas, o equívoco sobre a importância do eu - Ignorâncias resignadas, mantidas e levadas preguiçosamente pela sociedade como algo completamente normal.

Convido-lhes a assistir, e empregar um pouco de atenção.





Guilherme Braga - Perguntas e Respostas

Tristeza

terça-feira, 16 de setembro de 2014



Não consigo acreditar que Rousseau tem mais direito que eu, ou qualquer outro sobre achar de si um ser humano diferenciado... Pois então, eu ainda uso humildade. No caso do gênio, o mesmo parecia se apresentar como inalcançável, fora dos padrões sociais. 

 Se eu pudesse, encontraria Rousseau e diria a ele que não é o único. Que o acolhimento da sinceridade lógica é possível e fundamental pro dito competente. Algo essencialmente presente, intrínseco aos que acreditam. Apresentado a nós antes de qualquer outro objeto, e é aquilo que toma nossas decisões.

Obrigada pela orientação, professor.


"[A diferença que existe entre o meu homem verdadeiro e o da sociedade é que este é rigorosamente fiel a toda a verdade que nada lhe custe]
A santa verdade que seu coração adora não consiste em fatos indiferentes e nomes inúteis, mas em atribuir com fidelidade a cada um o que lhe é devido nas coisas que de verdade são suas, imputações boas ou ruins, retribuições de honra ou censura, de louvor ou repreensão. Ele não é falso com os demais, por que sua equidade não o permite e por que ele não quer prejudicar alguém injustamente, nem a si mesmo, por que sua consciência não o permite e porque ele não conseguiria atribuir-se o que não é seu. 

É sobretudo à sua reputação que ele se apega.


Jean Jaques Rousseau – Os devaneios do caminhante solitário."

Hiroshi Yoshida

sábado, 13 de setembro de 2014



Embriagai-vos
É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar. Mas – de quê ? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis.

E, se algumas vezes, sobre os degraus de um palácio, sobre a verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:
- É a hora de embriagar-se! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.

Charles Baudelaire, Petits poémes en prose, 1869.




Desejo embriagar-lhes neste blog, de virtude. Vou permanecer sempre a postar, mesmo que forma desritmada, aqui. Com prazer e a intenção de compartilhar o que eu acredito ter sido escolhido com minuciosa dedicação, e com todos os sentidos e significados do mundo.

Eu gosto deste período da história, da informação e de alguns pontos da liberdade. 

Eu quero seguir, e quero estes que retornam, sigam a valorizar, mesmo que em silêncio.
É bom ver que vocês voltam aqui.

Antigos Engavetados

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Paixão Nº1

Viu, meu garoto especial,
Não pensemos no que for,
Se o importante é o que fará,
Quero trazer a realidade
Refletida na chapa do amor

Sei que pensas,
Sou fatal,
Conduzir-nos sem  pudor
E até palavras arranjar, 
Pra resumir a intenção 
Por algo arrebatador.

Mas agora, só por agora
Esqueceria as outroras
E sem apreciar mais nada, 
Aqui a ti, 
Nessa madrugada
Cumpriria o gesto do amor.

Ariana Prestes, 
Porto Alegre. Inverno 2015

Mantenho a Memória de Ti


Prefiro a memória de ti, 
Por seres eterno no infindo lago das dimensões possíveis 
O que compreende minha vastidão.
Em todo infinito céu inevitável, 
Não haverá equilíbrio viável
Que me proteja da intransmutável 
Proteção que preciso às suas fotografias.

Mas não fenecerei em vão...

Pois premissas da paraíso e do inferno 
Transitam aqui bem devagar
E  nessa distância precipitada é demasiado fácil oscilar 
Criada em minha percepção,
Cobrirei-me da memória de ti, 
Como escudo anti cometas
Amuleto enérgico pela verdade 
Provida na essência de nossos instantes.

Impressão grandiosa tua em mim, 
Contrapondo o quão incomunicável compreendo-me agora,
Na alma sinto o ferver 
E a esperança de não viver
 O inalcançável até o fim, 


Cultivo com gosto e sobriedade
Todo os momentos em que disposto
Deus deu-me almas sensíveis
E rodeada por seres bons
Vou seguir na solidão
Por minha alma que ainda vive.

Diotima Renard
Porto Alegre,
2015


República


O que por ti me encantara,
Nesse diferente tranco,  
Como nunca notara,
Aprecio a cada canto.

Urge
Tudo o que ressalve, 
Estes passos que em auge
Ousa embalo que ninguém vê

Conduz-me Deus
A esta mensagem
Oh, quão afável  imagem
E a comoção que é te ter

Verde musgo vindo à vida. 
Teus portões e a Beladona 
Seus jardins em tons cinza
A cidade que encandeia.

Quase é quem soube ser
Tido um fino e modesto espasmo
Deste feito admirável, sente,
Vem do meu querer,

Minhas dádivas, 
Memórias 
Minhas fontes irrisórias 
Deste encontro valorizo 
Todo feito em ardor.

Pois se a sina é esquecer, 
Esqueço e encontro-me no meio 
Duma rua sem receio,
Onde a
 vida me presenteia.

E esquecerei sem alarde.. 
Mas não de ti
Nem da árvore,
Com seus canteiros em flor,
Suvenires de realidade.

Esquecerei do breve vento 
Que ousei ao firmamento
Provar com gosto e vontade
Uma tristeza do amor, 

Pra trazer ao meu destino
Mudar abstrato caminho
Oh, só tu
Passagem em cor...

Gratitude pelo carinho
Poder esquecer um pouquinho
A solidão que fez um ninho
Vivendo vida em meu interior.

Diotima Renard
Porto Alegre
2015


O peito de um outro cão


Fato importante surge e digo, historia excepcional
Com grandioso coração
Emblemática demanda
Expressão, velocidade, escuridão
Em nú abrigo acolhida, a chance tida anormal
– Um portal. Cães correspondem meu chamado, conduzindo-me aos algures... 
Pois é, tudo isso e tal, - condenei à opressão
Desenho de que era feito o infortúnio
O mal

Impaciente em razão,
Só, em minha indene espiritual
Pedi que a força da maleza, num desejo do querer,
Trouxesse a figura real
Eis portanto, que tenaz seu silvo urge, e em meu peito se confunde
O choque que ei de levar.
Bicho imenso, dentes e músculos
Num galope que usurpa, no umbral a revelar
Filho fantasma negrito a urdir
Seio da noite fria em turvo
Prata uivo e luar

Fui eu na floresta,então
Transformando vento em sentido
Provocando o coisa ruim
Nos cegos galopes distantes
Pulsantes dentro de mim
Perecendo no lascivo
Encontro provocativo
Atingindo-me, Enfim,
De torpe em supetão
Golpeando forte meu peito

Com o peito de outro cão

Santa Maria 2014



"Sempre que se começa a ter amor a alguém...

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

...no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando, mas quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. 
Amor desse, cresce primeiro; brota é depois."

- João Guimarães Rosa, em Grande Sertão: veredas.

Why aren't we more compassionate?

segunda-feira, 1 de setembro de 2014




Werther, where are you to be kind and good to me?

"Medo"



E cedo porque me embala 
Num vai-vem de solidão,
 É com silêncio que fala, 
Com voz de móvel que estala 
E nos perturba a razão
E nos perturba a razão
...


-Johann Wolfgang von Goethe: O Divino e Elegia

sábado, 30 de agosto de 2014

Muito Obrigada.


O divino

Nobre Seja o homem,
Solicito e bom!
Pois isso apenas
O distingue
De todos os seres
Que conhecemos.

Louvemos os seres
Supremos, ignotos,
Que pressentimos!
A eles deve igualar-se o homem!
Que o seu exemplo nos ensine
A crer naqueles.

Pois insensível
É a Natureza:
O Sol alumia
Os maus e os bons,
E o criminoso
Vê como os melhores
Brilhar Lua e estrelas.

O vento e as torrentes
Trovão e granizo,
Desabam com estrondo
E atingem
No seu ímpeto
Um após outro.

Também a sorte anda
Às cegas entre a multidão
E escolhe, ora os cabelos
Inocentes do menino,
Ora a cabeça calva
Do culpado.

Grandes leis
Eternas, de bronze,
Regem os ciclos
Que todos temos de percorrer
Na nossa existência.
Divino
Mas só o homem
Consegue o impossível:
Pois sabe distinguir,
Escolher e julgar;
Por ele o instante
Ganha duração.

Só ele pode
Premiar os bons,
Castigar os maus,
Curar e salvar,
Unir com sentido
O que erra e se perde.

E nós veneramos
Os imortais
Como se homens fossem,
E em grande fizessem
O que em pequeno os melhores
Fazem ou desejam.

Que o homem nobre
Seja solícito e bom!
incansável, crie
O útil, o justo,
E nos seja exemplo
Daqueles seres que pressentimos! 

- Johann Wolfgang von Goethe



Elegia
E quando o homem emudece de dor
Um deus me deu dizer tudo o que sofro.

Que hei-de eu então do reencontro esperar,
Do botão deste dia inda fechado?
Paraíso e inferno, de par em par

Se abrem ao meu espírito desvairado
Não tenho dúvidas! Ao céu vai subir,
P’ra nos braços a ti te receber.

E assim no paraíso já te vejo,
No eterno e belo reino, sem merecê-lo;
Não te restou esperança, ânsia, desejo,
Era esta a meta do mais íntimo anelo,
E ante uma tal beleza nasce o espanto,
Secou a fonte de nostálgico pranto.

Que célere o bater de asas do dia!
Um a um os minutos a ceder!
À noite, o beijo - o selo que nos unia:
E assim será com o Sol que há-de nascer.
Correm as horas, iguais e indolentes,
Todas irmãs, e todas tão diferentes.

O beijo, o derradeiro, doce cruel,
Rasga a trama sublime deste amor.
O pé apressa-se, pára, foge do umbral,
Expulso pelo anjo de espada a flamejar;
Fixa o olhar o caminho, enfadado,
Volta-se, triste — o portão está fechado.

Fechado em si agora o coração.
Como se nunca aberto se tivesse
Nem, com os astros em competição,
Com ela horas de sonho desfrutasse;
E arrependimentos, cuidados, desprazer,
Como ar de chumbo sobre ele a pesar.

Mas não nos resta o mundo? -  Estes rochedos.
De sombras sacras não estão coroados?
Não sazona a colheita? E os campos verdes
Não se estendem por rios, bosques e prados?
E não se arqueia a cósmica grandeza,
Ou rica em formas, ou nua de beleza?

Grácil e leve, em claro tecido, aéreo,
Paira, seráfica, entre brumas estelares,
Como que a ela igual, no azul etéreo,
Forma esbelta, de diáfanos vapores:
Assim a viste dançando, esplendorosa,
Das formas graciosas a mais graciosa.

Mas só por uns instantes ousaras
Um fantasma reter em seu lugar;
Volta ao coração! Aí a encontrarás,
Em mil formas se oferecendo ao teu olhar;
E uma verás em muitas convertida,
Em milhares delas, cada vez mais querida.

Ficava às portas, como para receber-me,
Passo a passo me levando ao desvairo;
Depois do último beijo inda alcançar-me
Para nos lábios me pôr o derradeiro:
E fica-me essa imagem clara e viva
No coração fiel a fogo escrita.

Muralha alcandorada, o coração,
Que a guarda em si e se guarda para ela,
Que por ela se alegra com a própria duração,
Só de si sabe quando ela se revela,
Se sente livre nessa amada prisão,
E por ela bate, todo gratidão.

Se morta e apagada estava em mim
A vontade de amar, de ser amado,
Logo o desejo de nova ação senti,
De decisões, projetos esperançados!
E se é verdade que o amor inspira o amante,
Eu próprio disso sou prova eloquente;

E a ela o devo! Que angústia interior,
No corpo e n’ alma odiada opressão:
Assediado por imagens de terror,
No deserto vazio do coração:
Mas nasce a esperança no conhecido umbral,
E ela mesma aparece, um claro Sol.

À paz de Deus que neste mundo a vós
a razão consola — é o que lemos —
Comparo do amor a serena paz
Na presença do ser que mais amamos’
Repousa o coração, e nada abala
Este forte sentir de ser só dela.

Na nossa alma pura há uma saudade
De só nos darmos, em gesto livre e grato,
A uma pura, ignota, alta entidade,
Desvelando em nós o eterno Inominado;
Devoção lhe chamamos, e eu sinto
Esse êxtase quando ante ela me encontro.

O seu olhar, como a força do Sol,
O seu hálito, como a brisa de Maio,
Faz degelar, como em cripta invernal,
O egoísmo que o tempo inteiriçou;
Não há interesse, vontade, que resistam,
Quando ela chega logo eles se dissipam.

É como se dissesse: «De hora a hora
Amavelmente a vida nos é dada,
O que ontem foi, mal o temos agora.
A ciência do futuro é-nos vedada:
E sempre que à noitinha tive medo,
O pôr do Sol me encontrou vivo e ledo.

«Por isso, faz como eu e olha, sensato,
O instante de frente, sem adiar!
Enfrenta-o logo, benévolo, animado,
Quer para o prazer da ação, quer para amar:
Onde estiveres, sê tudo, infantilmente,
E serás tudo, insuperável sempre.»

Tu falas bem, pensei, e a ti te deu
Um deus por companhia o dom do instante,
E cada um num instante se sente a teu
Lado ao dom dos Fados pretendente;
Assusta-me o sinal que a num de ti
Me afasta — tanto saber para quê?

Estou longe agora! Ao minuto que passa
Que coisa convém mais? Não sei dizer;
Algo de bom me oferece, com a beleza,

Mas só me pesa, tenho de o repelir;
Move-me a ânsia indócil que há em mim
E o que me resta são lágrimas sem fim.

Brotai então, e correi sem parar,
Mas o fogo interior não esfriareis!
Um furor louco meu peito quer rasgar,
Vida e morte entram em luta feroz.
Para a dor do corpo mezinha iria achar,
Mas falta ao espírito a decisão, o querer,

E o entendimento: como passar sem ela?
E mil vezes convoca a sua imagem,
Que ora lhe é roubada, ora vacila,
Nítida agora, depois uma miragem;
Virá alguma vez consolação
Do vaivém das marés do coração?

Deixai-me aqui, meus fiéis companheiros,
Entre pântano e musgo, numa fraga;
O mundo abre-se a vós. Ide, ligeiros!
Sublime e grande é o Céu, a Terra larga;
Estudai, juntai os factos, e na procura
Balbuciai os segredos da Natura.

Perdi o Todo, de mim já me perdera,
Eu, ainda há pouco o eleito dos deuses.
À prova me puseram, veio Pandora
Cheia de bens, e inda mais de reveses:
A uma pródiga boca me prenderam,

E com a separação morte me deram.

- Johann Wolfgang von Goethe,

Para viver um grande amor...

terça-feira, 26 de agosto de 2014


É que, mesmo prepotente, sou eu e mais três conscientes,
que se aproximam do saber verdadeiro
e realmente fazem  por onde, tudo o que compreendem.

Independente do que ocorra, ou da infeliz ideia de se imaginar sabedor de outrem...
Que conhece tudo sobre aquele que também se diz saber do significado...
Como quem age com paixão.
É ter fé de não cairmos no azar, de por ventura o amado possa, se passar por nada mais que apenas mais outro equivocado.
Destes quaisquer que no final das contas,
 só pensam que sabem algo.
...
Lado da face complicada, sobre a filosofia de Viver o Grande Amado.




IAE 4

Do Acidente

domingo, 24 de agosto de 2014

Dos fermis que oscilo à estrada verdadeira,
"Força alta exige-o"

Por imagem criada
Caio
Decaio
Esvaio

Que não seja o derradeiro fragmento na lembrança,
Finar das veias deste bicho de cangaio...

Moros!
 Não use transpassar-me à lança.

"Na intermitência da vital canseira,"
Filho dos meus problemas e do movimento sistemático
Que a sabedoria compartilhada estigme a verdade
De que nada motiva a presença de seu tal personage.


(Parênteses de Augusto dos Anjos)







ARIANA, a mulher

quarta-feira, 23 de julho de 2014




Quando, aquela noite, na sala deserta daquela casa cheia da montanha em torno
O tempo convergiu para a morte e houve uma cessação estranha seguida de um debruçar do instante para o outro instante
Ante o meu olhar absorto o relógio avançou e foi como se eu tivesse me identificado a ele e estivesse batendo soturnamente a Meia-Noite
E na ordem de horror que o silêncio fazia pulsar como um coração dentro do ar despojado
Senti que a Natureza tinha entrado invisivelmente através das paredes e se plantara aos meus olhos em toda a sua fixidez noturna
E que eu estava no meio dela e à minha volta havia árvores dormindo e flores desacordadas pela treva.

Como que a solidão traz a presença invisível de um cadáver — e para mimera como se a Natureza estivesse morta
Eu aspirava a sua respiração ácida e pressentia a sua deglutição monstruosa mas para mim era como se ela estivesse morta
Paralisada e fria, imensamente erguida em sua sombra imóvel para o céu alto e sem lua
E nenhum grito, nenhum sussurro de água nos rios correndo, nenhum eco nas quebradas ermas
Nenhum desespero nas lianas pendidas, nenhuma fome no muco aflorado das plantas carnívoras
Nenhuma voz, nenhum apelo da terra, nenhuma lamentação de folhas, nada.

Em vão eu atirava os braços para as orquídeas insensíveis junto aos lírios inermes como velhos falos
Inutilmente corria cego por entre os troncos cujas parasitas eram como a miséria da vaidade senil dos homens
Nada se movia como se o medo tivesse matado em mim a mocidade e gelado o sangue capaz de acordá-los
E já o suor corria do meu corpo e as lágrimas dos meus olhos ao contato dos cactos esbarrados na alucinação da fuga
E a loucura dos pés parecia galgar lentamente os membros em busca do pensamento
Quando caí no ventre quente de uma campina de vegetação úmida e sobre a qual afundei minha carne.

Foi então que compreendi que só em mim havia morte e que tudo estava profundamente vivo
Só então vi as folhas caindo, os rios correndo, os troncos pulsando, as flores se erguendo
E ouvi os gemidos dos galhos tremendo, dos gineceus se abrindo, das borboletas noivas se finando
E tão grande foi a minha dor que angustiosamente abracei a terra como se quisesse fecundá-la
Mas ela me lançou fora como se não houvesse força em mim e como se ela não me desejasse
E eu me vi só, nu e só, e era como se a traição tivesse me envelhecido eras.

Tristemente me brotou da alma o branco nome da Amada e eu murmurei — Ariana!
E sem pensar caminhei trôpego como a visão do Tempo e murmurava — Ariana!
E tudo em mim buscava Ariana e não havia Ariana em nenhuma parte
Mas se Ariana era a floresta, por que não havia de ser Ariana a terra?
Se Ariana era a morte, por que não havia de ser Ariana a vida?
Por que — se tudo era Ariana e só Ariana havia e nada fora de Ariana?

Baixei à terra de joelhos e a boca colada ao seu seio disse muito docemente — Sou eu, Ariana...
Mas eis que um grande pássaro azul desce e canta aos meus ouvidos — Eu sou Ariana!
E em todo o céu ficou vibrando como um hino o muito amado nome de Ariana.
Desesperado me ergui e bradei: Quem és que te devo procurar em toda a parte e estás em cada uma?
Espírito, carne, vida, sofrimento, serenidade, morte, por que não serias uma?
Por que me persegues e me foges e por que me cegas se me dás uma luz e restas longe?

Mas nada me respondeu e eu prossegui na minha peregrinação através da campina
E dizia: Sei que tudo é infinito! — e o pio das aves me trazia o grito dos sertões desaparecidos
E as pedras do caminho me traziam os abismos e a terra seca a sede nas fontes.
No entanto, era como se eu fosse a alimária de um anjo que me chicoteava — Ariana!
E eu caminhava cheio de castigo e em busca do martírio de Ariana
A branca Amada salva das águas e a quem fora prometido o trono do mundo.

Eis que galgando um monte surgiram luzes e após janelas iluminadas e após cabanas iluminadas
E após ruas iluminadas e após lugarejos iluminados como fogos no mato noturno
E grandes redes de pescar secavam às portas e se ouvia o bater das forjas.
E perguntei: Pescadores, onde está Ariana? — e eles me mostravam o peixe
Ferreiros, onde está Ariana? — e eles me mostravam o fogo
Mulheres, onde está Ariana? — e elas me mostravam o sexo.

Mas logo se ouviam gritos e danças, e gaitas tocavam e guizos batiam
Eu caminhava, e aos poucos o ruído ia se alongando à medida que eu penetrava na savana
No entanto era como se o canto que me chegava entoasse — Ariana!
E pensei: Talvez eu encontre Ariana na Cidade de Ouro — por que não seria Ariana a mulher perdida?
Por que não seria Ariana a moeda em que o obreiro gravou a efígie de César?
Por que não seria Ariana a mercadoria do Templo ou a púrpura bordada do altar do Templo?

E mergulhei nos subterrâneos e nas torres da Cidade de Ouro mas não encontrei Ariana
Às vezes indagava — e um poderoso fariseu me disse irado: — Cão de Deus, tu és Ariana!
E talvez porque eu fosse realmente o Cão de Deus, não compreendi a palavra do homem rico
Mas Ariana não era a mulher, nem a moeda, nem a mercadoria, nem a púrpura
E eu disse comigo: Em todo lugar menos que aqui estará Ariana
E compreendi que só onde cabia Deus cabia Ariana.

Então cantei: Ariana, chicote de Deus castigando Ariana! e disse muitas palavras inexistentes
E imitei a voz dos pássaros e espezinhei sobre a urtiga mas não espezinhei sobre a cicuta santa
Era como se um raio tivesse me ferido e corresse desatinado dentro de minhas entranhas
As mãos em concha, no alto dos morros ou nos vales eu gritava — Ariana!
E muitas vezes o eco ajuntava: Ariana... ana...
E os trovões desdobravam no céu a palavra — Ariana.

E como a uma ordem estranha, as serpentes saíam das tocas e comiam os ratos
Os porcos endemoninhados se devoravam, os cisnes tombavam cantando nos lagos
E os corvos e abutres caíam feridos por legiões de águias precipitadas
E misteriosamente o joio se separava do trigo nos campos desertos
E os milharais descendo os braços trituravam as formigas no solo
E envenenadas pela terra descomposta as figueiras se tornavam profundamente secas.

Dentro em pouco todos corriam a mim, homens varões e mulheres desposadas
Umas me diziam: Meu senhor, meu filho morre! e outras eram cegas e paralíticas
E os homens me apontavam as plantações estorricadas e as vacas magras. E eu dizia: Eu sou o enviado do Mal! e imediatamente as crianças morriam
E os cegos se tornavam paralíticos e os paralíticos cegos
E as plantações se tornavam pó que o vento carregava e que sufocava as vacas magras.

Mas como quisessem me correr eu falava olhando a dor e a maceração dos corpos
Não temas, povo escravo! A mim me morreu a alma mais do que o filho e me assaltou a indiferença mais do que a lepra
A mim se fez pó e carne mais do que o trigo e se sufocou a poesia mais do que a vaca magra
Mas é preciso! Para que surja a Exaltada, a branca e sereníssima Ariana
A que é a lepra e a saúde, o pó e o trigo, a poesia e a vaca magra
Ariana, a mulher — a mãe, a filha, a esposa, a noiva, a bem-amada!

E à medida que o nome de Ariana ressoava como um grito de clarim nas faces paradas
As crianças se erguiam, os cegos olhavam, os paralíticos andavam medrosamente
E nos campos dourados ondulando ao vento, as vacas mugiam para o céu claro
E um só clamor saía de todos os peitos e vibrava em todos lábios — Ariana!
E uma só música se estendia sobre as terras e sobre os rios — Ariana!
E um só entendimento iluminava o pensamento dos poetas — Ariana!

Assim, coberto de bênçãos, cheguei a uma floresta e me sentei às suas bordas — os regatos cantavam límpidos
Tive o desejo súbito da sombra, da humildade dos galhos e do repouso das folhas secas
E me aprofundei na espessura funda cheia de ruídos e onde o mistério passava sonhando
E foi como se eu tivesse procurado e sido atendido — vi orquídeas que eram camas doces para a fadiga
Vi rosas selvagens cheias de orvalho, de perfume eterno e boas para matar a sede
E vi palmas gigantescas que eram leques para afastar o calor da carne.

Descansei — por um momento senti vertiginosamente o húmus fecundo da terra
A pureza e a ternura da vida nos lírios altivos como falos
A liberdade das lianas prisioneiras, a serenidade das quedas se despenhando.
E mais do que nunca o nome da Amada me veio e eu murmurei o apelo — Eu te amo, Ariana!
E o sono da Amada me desceu aos olhos e eles cerraram a visão de Ariana
E meu coração pôs-se a bater pausadamente doze vezes o sinal cabalístico de Ariana...
..........................................................................................................................................................

Depois um gigantesco relógio se precisou na fixidez do sonho, tomou forma e se situou na minha frente, parado sobre a Meia-Noite
Vi que estava só e que era eu mesmo e reconheci velhos objetos amigos.
Mas passando sobre o rosto a mão gelada senti que chorava as puríssimas lágrimas de Ariana
E que o meu espírito e o meu coração eram para sempre da branca e sereníssima Ariana
No silêncio profundo daquela casa cheia da Montanha em torno.

                                                                                                                    - Vinicius de Moraes

ÓPIO

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Sê Rei de Ti Próprio
 


Não tenhas nada nas mãos 
Nem uma memória na alma, 
Que quando te puserem 
Nas mãos o óbolo último, 
Ao abrirem-te as mãos 
Nada te cairá. 
Que trono te querem dar 
Que Átropos to não tire? 
Que louros que não fanem 
Nos arbítrios de Minos? 
Que horas que te não tornem 
Da estatura da sombra 
Que serás quando fores 
Na noite e ao fim da estrada. 
Colhe as flores mas larga-as, 
Das mãos mal as olhaste. 
Senta-te ao sol. Abdica 
E sê rei de ti próprio. 

Ricardo Reis /  Fernando Pessoa



Palavras de Dalai Lama

 Enfrentar sofrimentos contribuirá indiscutivelmente para a elevação 
de sua prática espiritual, desde que você seja capaz de transformar a
calamidade e o infortúnio em caminho.

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O caminho tem dois aspectos: o aspecto metódico, que engloba as
práticas da compaixão e da tolerância, e o aspecto da sabedoria e do
conhecimento, relacionado à sagacidade para penetrar na natureza
da realidade. A última parte do caminho é o verdadeiro antídoto
 para eliminar a ignorância.

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Uma árvore em flor fica despida no outono. A beleza transforma-se
em feiúra, a juventude transforma-se em velhice e o erro transforma-
se em virtude. Nada fica sempre igual e nada existe realmente.
Portanto, as aparências e o vazio existem simultaneamente. 

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Está escrito em nossos livros que devemos cultivar um amor igual
àquele da mãe pelo filho único. 

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Disciplina é um supremo ornamento e, seja usada pelos velhos ou
pelos moços, faz nascer apenas felicidade. É perfume por excelência
e, ao contrário dos perfumes comuns que só viajam com o vento, seu
aroma refrescante viaja espontaneamente em todas as direções.
Bálsamo sem igual, proporciona alívio às dores intensas da ilusão e
do engano. 

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Como um aprendiz espiritual, você deve estar preparado para
enfrentar as dificuldades que estão associadas a toda busca espiritual
genuína e estar determinado a persistir em seus esforços e sua
vontade. Você deve tentar prever os obstáculos que forçosamente
encontrará ao longo do caminho e compreender que a chave para a
prática bem-sucedida é nunca abandonar sua determinação. 

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Comprometer-se com atividades virtuosas é um pouco como criar
uma criança pequena. No começo, precisamos ser prudentes e
habilidosos em nossas tentativas para transformar nossos hábitos e
temperamentos. Também temos de ser realistas a respeito daquilo
que esperamos conseguir. Levou muito tempo para ficarmos do
jeito que somos e não se mudam hábitos do dia para a noite.
E bom olhar para cima à medida que se progride, mas é um engano
julgar nosso comportamento utilizando o ideal como padrão. Por
isso, é muito mais eficaz, em vez de alternar breves rompantes de
esforço heróico com períodos de relaxamento, trabalhar com
constância, como um rio fluindo em direção a um objetivo de
transformação. 

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Faça o melhor que puder e faça-o de acordo com seu padrão interior
próprio (ou consciência, se assim preferir), não para o conhecimento
e avaliação de seus atos pela sociedade. "Fazer o melhor" é apenas
uma frase de poucas palavras, mas significa que, em todas as
ocasiões de nossa vida diária, precisamos manter nossa mente sob
controle, para mais tarde não nos arrependermos de nossos erros,
mesmo que os outros nada saibam a respeito. Agindo assim, 

estaremos  fazendo o melhor. 

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Quando você se aprofunda em sua prática espiritual e dá ênfase à
sabedoria e à compaixão, aprende a reconhecer o sofrimento de
outros seres sensíveis que cruzam o seu caminho e a reagir a esse
sofrimento de maneira construtiva, sentindo compaixão profunda
em vez de apatia ou impotência. 

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Sentir compaixão não é o bastante. É preciso agir. A ação pressupõe
dois momentos: o primeiro é quando vencemos as distorções e
aflições de nossa própria mente, aplacando ou até mesmo nos
livrando da raiva. Esse momento é fruto da compaixão. O segundo
é de caráter social, de âmbito público. Quando alguma atitude
precisa ser tomada para corrigir erros neste mundo e a pessoa está
sinceramente preocupada com seus semelhantes, então tem de se
engajar, se envolver. 

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A verdadeira compaixão é livre de vinculações. E preciso atenção
para este princípio, pois ele contradiz nossa maneira habitual de pensar.
Não é este ou aquele caso em especial que estimula a nossa
piedade. Não escolhemos esta ou aquela pessoa como objeto de
 nossa compaixão. A compaixão é despertada espontaneamente, é
incondicional, sem qualquer expectativa de vir a receber algo em
troca. E é de alcance universal.

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Os três vícios físicos são matar, roubar e ter comportamento sexual
impróprio. Os quatro vícios verbais são a mentira, a tendência para
a discórdia, as palavras cruéis e o discurso incoerente. Os três vícios
do espírito são a cobiça, as más intenções e os juízos equivocados. 

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A fé dissipa a dúvida e a hesitação, liberta-nos do sofrimento e nos
conduz à terra da paz e da felicidade.

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Se você conta com alguém que tem menos qualidades que você, isso
levará à sua degeneração. Se você conta com alguém com qualidades
iguais às suas, você permanece onde está. Somente quando
 conta com alguém cujas qualidades são superiores às suas
 é que você atinge uma condição sublime.

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A culpa é um sentimento incompatível com nosso pensamento, pois
acreditamos que somos parte de uma ação mas não somos inteiramente
responsável por ela. Somos apenas parte do fator que contribuiu
para a ação. Entretanto, em alguns casos, devemos sentir
arrependimento, deliberadamente assumir responsabilidades,
lamentar o ocorrido e nunca cometer aquele erro outra vez.

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A constatação de que as pessoas bondosas sofrem e as más
experimentam o sucesso e o reconhecimento público é uma visão
limitada. Observe-se também que essa conclusão pode ser
precipitada. Quando se analisam os fatos com mais. profundidade,
descobre-se que, definitivamente, as pessoas desajuizadas não são
felizes. É preferível comportar-se bem, assumir a responsabilidade
pelos próprios atos e levar uma vida positiva. 

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Determinação, coragem e autoconfiança são fatores decisivos para o
sucesso. Não importa quais sejam os obstáculos e as dificuldades. Se
estamos possuídos de uma inabalável determinação, conseguiremos
superá-los. Independentemente das circunstâncias, devemos ser
sempre humildes, recatados e despidos de orgulho. 

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Quando a clara e límpida natureza da mente está escondida ou
impedida de expressar sua verdadeira essência devido a emoções ou
pensamentos angustiantes, diz-se que a pessoa foi pega em samsara,
o ciclo da existência.
Quando, porém, em decorrência da aplicação de técnicas e práticas de
meditação apropriadas, uma pessoa é capaz de usufruir totalmente
desse estado da mente, então ela está no caminho da verdadeira
libertação e total iluminação.

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Uma das coisas que aprendemos com a meditação, quando descemos
lentamente dentro de nós mesmos, é que a noção de paz já existe em
nós. Todos a desejamos profundamente, mesmo que esse desejo
esteja muitas vezes oculto, disfarçado, distorcido.

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A preguiça interrompe o progresso de nossa prática espiritual.
Podemos ser ludibriados por três formas de preguiça: a que se
manifesta como indolência, que é o desejo de adiar; a que se
manifesta como sentimento de inferioridade, que é duvidar da
própria capacidade; e a que se manifesta com a adoção de
 atitudes negativas, que é dedicar um esforço excessivo
 àquilo que não é virtude.  

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Uno minhas mãos e apelo a você, leitor, para que torne o resto de sua
vida tão significativo quanto possível. Faça isso por meio da prática
espiritual, se puder. Como espero ter deixado claro, não há nada de
misterioso nisso. Consiste apenas em agir levando os outros em
consideração. E se você o fizer com sinceridade e persistência,
pouco a pouco, passo a passo, será capaz de reordenar seus
 hábitos e atitudes e pensar menos em seu pequeno mundo
 de interesses e mais nos interesses de todas as outras
pessoas. E encontrará paz e felicidade
para si mesmo.

Abandone a inveja, desapegue-se do desejo de sobrepujar os outros.
Em vez disso, tente fazer bem a eles. Com bondade e gentileza, com
coragem e confiando que é assim que terá sucesso de fato, receba-os
com um sorriso. Seja franco e honesto. E tente ser imparcial. Trate
todos como se fossem amigos muito próximos. 

Não digo isso como Dalai-Lama ou como alguém que tenha poderes
ou talentos especiais. Não os tenho. Falo como um ser humano,
alguém que, como você, quer ser feliz e não sofrer.